Escrevendo com a necessária clareza

Há algum tempo penso em escrever este artigo. No entanto, o receio de não ser compreendido e a forte possibilidade de parecer um ridículo dono da verdade me levaram a postergar a escrita e a divulgação.

O que me apavora neste nosso destroçado Brasil é que atitudes e pensamentos óbvios não são sequer considerados pelas elites, pela mídia, pelos detentores do poder. As elites, intelectual e moralmente pobres, de onde se poderia esperar uma reação ao desatino coletivo, parece gostar do que está acontecendo, estendendo suas teias de poder e de suas possibilidades de lucros.

Que o presidente Temer e o senador Aécio devem renunciar, que os parlamentares e autoridades do Poder Executivo indiciados pela Justiça devem se licenciar para facilitar as apurações, que as eleições devem ser antecipadas para melhorar o nível de legitimidade do Estado brasileiro, atualmente em frangalhos, é o “obvio ululante”, como diria Nelson Rodrigues. Basta prestar honesta e inteligente atenção para o que o povo está dizendo, com irritação crescente, nas filas, nos transportes coletivos, nos encontros, nas redes sociais, onde de forma espontânea, sem análises sofisticadas, expressam o que pensam e sentem: nojo e repulsa pelos políticos, descrença nas instituições democráticas, com muita raiva beirando o ódio.

Sem a confiança da maioria da população nas instituições republicanas, democráticas, nada de bom e de duradouro poderá ser edificado.

Estamos perigosamente próximos de uma confrontação física, que poderá ser entendida como um basta radical do povo à situação amoral e anárquica que tomou conta do país. Não há possibilidades de demagógicos acordos para garantir a governabilidade, pois esta já não existe. Os proponentes e participantes ou estão envolvidos nas falcatruas, ou quase todos não merecem mais a confiança do povo. Esses atores desacreditados precisam se convencer que devem sumir de cena, para não irritar mais a população com o deboche das suas presenças. O povo quer, exige, caras novas honestas e competentes.

Quando a ira do povo explodir nas ruas, por falta de alternativa para a demonstração do seu desagrado, o que vai se fazer? Chamar as forças armadas para conter a população? Esperar que as Igrejas restaurem a paz social com seus apelos que não ecoam mais numa sociedade afastada das religiões?

São 14 milhões de desempregados, um sistema econômico que não investe, sem sinais consistentes e honestos de recuperação. Que o bando dirigente entenda que a antecipação, urgente, das eleições é a única saída política possível e aceitável para a restauração da legitimidade do poder republicano. O contrário será o caos.


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